| Um faroeste diferente do tradicional, que contraria os clichês básicos. Uma obra-prima. |
É engraçado que, anos após de cinema sem o devido
reconhecimento da Academia, Clint Eastwood tenha se consagrado com um dos
gêneros que lhe lançou no cinema: o western, mais conhecido como o clássico
faroeste, que gosto tanto. E logo quando o gênero estava bem fraco, com uma leve
retomada com o bacaninha Dança com Lobos, do também ator e
diretor Kevin Costner. Só que Eastwood não fez apenas um faroeste qualquer, ele
redefiniu algumas características com o seu já considerado clássico Os
Imperdoáveis.
Para começo de conversa, o protagonista é um ex-sanguinário
assassino chamado William Munny (o próprio Eastwood, em uma de suas melhores
interpretações), que vive com o fantasma de seu passado violento, depois de ter
sido regenerado pela sua mulher Cláudia. Agora é pai viúvo de dois filhos que
tenta, com muito sacrifício, levar uma vida honesta de fazendeiro criador de
porcos. Um personagem sofrido, amargurado, com um tratamento psicológico bem
diferente de um western tradicional. Quando uma prostituta tem seu rosto
retalhado por um homem, as moças juntam suas economias para contratar um
assassino e fazer a justiça com suas próprias mãos, já que consideraram o
veredicto do xerife (Gene Hackman) injusto. Levado pelo dinheiro, Munny parte em
busca dos homens e, em um plano mais trabalhado, de confrontação com o seu
passado macabro. Munny decide chamar então seu fiel amigo Ned (Morgan Freeman)
para acompanhar-lhe nessa busca. Além dos três grandes nomes já citados (que
deram um peso enorme ao filme, sem dúvida, e olha que Hackman recusou o papel,
só o aceitou devido a insistência de Eastwood!), temos uma participação de
Richard Harris (o mago Dumbledore da série Harry Potter,
falecido em 25 de Outubro de 2002), perfeito, como sempre.
Derrubando com o primeiro clichê do western (o bom moço), temos
a imagem da mulher trabalhada. Aqui não é uma boa moça dona de casa a
protagonista, e sim uma prostituta que vende sem vergonha o seu corpo, toma suas
próprias decisões e tudo mais. Usei o singular aqui, mas me refiro a um grupo
específico de prostitutas que trabalham em um centro de bilhar. Só que, no mesmo
tempo que ele rompe com um classicismo do gênero, desliza em um detalhe: a
própria moça retalhada tem o seu psicológico muito pouco trabalhado. Talvez seu
maior momento seja quando ela se oferece para Eastwood (onde não direi o que
acontece, por motivos óbvios), algo realmente marcante, mas pouco trabalhada
durante o filme em si.
O xerife deixa de ser visto como o bom moço para a cidade e é
tratado como uma pessoa extremamente vaidosa e egocêntrica, apesar dos
princípios básicos e das mesmas atitudes que geralmente toma em outros filmes de
faroeste. Aqui é um outro ponto de vista, mudando completamente o seu
significado dentro da obra. Gene Hackman faturou um Oscar de ator coadjuvante
por sua interpretação neste filme. Outra fuga de clichê foi a sacada da luta
entre homens brancos contra homens brancos, deixando o clássico brancos x índios
do passado de lado. Não parece lá muito original, porém é um lado extremamente
pouco explorado do modo como é apresentado.
Além de ator coadjuvante, Os Imperdoáveis faturou os Oscar de
melhor montagem (de Joel Cox), melhor direção (Clint Eastwood) e o tão cobiçado
título de melhor filme. Ainda foi indicado para melhor ator (perdendo para Al
Pacino em Perfume de Mulher), direção de arte (quem faturou foi
Retorno a Howard´s End), fotografia (ficou com Nada é
Para Sempre) e roteiro original (Traídos Pelo Desejo
foi o vencedor). Sobre esses quesitos, vale citar que a fotografia é
simplesmente maravilhosa, pois além de trazer belos cenários (como já era de se
esperar em um faroeste), ela traz também algumas novidades, como a melancolia
que a chuva transmite (algo raro no gênero). Sobre o roteiro, ele é fantástico,
pois além de criar situações extremamente interessantes, a simplicidade nas
falas dos personagens representou bem toda a brutalidade escondida por trás
daqueles chapéus e barbas mal feitas. O engraçado é que ficou 20 anos rodando de
um lado para o outro em Hollywood, sem haver ninguém interessado em
filmá-lo.
Quando terminei de assistir a Os Imperdoáveis,
tive a certeza de ter visto um clássico. Não é ingênuo, muito pelo contrário, é
um tratamento completamente diferente aos personagens em um gênero tão
tradicional. É muito diferente de títulos como Rastros de Ódio
(outro filme que amo), que vale a pena ser conferido e até mesmo comparado à
outros clássicos do western americano. A noite do Oscar de 1993 foi inesquecível
para Eastwood, que, finalmente, saiu consagrado da premiação,
merecidamente.
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| Por Rodrigo Cunha, em 26/07/2003 |
FONTE:http://www.cineplayers.com/critica.php?id=260







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