Across the Universe parte de uma idéia
irresistível, de contar duas histórias – uma, de amor, e outra, de uma geração,
a dos loucos anos 60 – por meio das músicas dos Beatles, mas termina num filme
longo e cheio de falhas, com uma edição assassina, briga da diretora com o
estúdio, críticas negativas e pouca repercussão de público. Trata-se de uma obra
fascinante com grandes momentos, não necessariamente um bom filme.
Começa bem em Liverpool, ao som de Girl, de John
Lennon e Paul McCartney, quando um trabalhador nas docas (com o sugestivo nome
de Jude) decide pegar o navio e procurar o pai, que trabalha na universidade de
Princeton, nos EUA. Lá ele conhece Lucy, um loirinha de classe média que é o
protótipo dos baby boomers, da qual a diretora do filme, Julie Taymor, hoje com
seus 50 e tantos anos, faz parte, assim como os roteiristas, Dick Clement e Ian
La Frenais (The Commitments – Loucos pela Fama).
Os números musicais do início proseguem magníficos e tem-se a
impressão de que o filme caminha para ser uma obra-prima. A apresentação das
personagens é perfeita e, já em Nova York há encenações ilustrando o movimento
negro tacando fogo (literalmente) na cidade, o movimento gay começando a sair do
armário (uma cheerleader lésbica descendente de asiáticos cantando I Wanna
Hold Your Hand referindo-se a gostosona do pedaço) e as marchas contra a
Guerra do Vietnã reunindo todos nas ruas: a música Let it Be ganha
contornos inesquecíveis.
Entretanto, aos poucos a política assume prioridade no filme,
em detrimento ao sexo, drogas e rock’n’roll. Começa o naufrágio de
Across the Universe. Afunda (com classe) em parte por conta do
proselitismo da diretora, mas o próprio tempo é a principal causa. Afinal, fumar
maconha nos anos 60 era totalmente diferente de fumá-la hoje. A rebeldia não tem
mais o mesmo significado e parece não ter lugar hoje, no nosso mundo pragmático
e sem grandes paixões ideológicas: até o mais ferrenho conservador, militarista
e reacionário cidadão de direita é perfeitamente capaz de escutar Beatles sem
nem sem dar bola para a mensagem das letras.
Ou seja, as canções dos Beatles já foram absorvidas pela
indústria cultural e transformadas em tantas coisas, assumindo novos
significados. A diretora sabia disso e resolveu fazer um híbrido, jogando com os
dois universos, o da utopia da esquerda americana dos anos 60 com o musical
americano (que ela tão bem fez na Broadway, em especial a milionária e
multipremiada versão de O Rei Leão, elogiadíssima e de imensa
bilheteria). O resultado nunca convence, nunca se realiza, o filme se perde
nessa pretensão.
Mas Julie Taymor teve a coragem de regravar as 33 músicas
usadas no filme (duas sem letras), de forma que os atores as cantam em arranjos
apropriados para o contexto. É um dos triunfos do filme, pois as músicas
originais jamais funcionariam (Cazuza - O Tempo Não Pára não
deu certo, entre outros fatores, pela falta de coragem dos diretores em regravar
as músicas, feitas em outro contexto). A mudança ficou a cargo do marido da
diretora, Elliot Goldenthal, que ganhou um Oscar pela trilha de
Frida, ótimo filme da mesma diretora subvalorizado no Brasil.
Quase no fim do filme há outro destaque, quando toca
Strawberry Fields Forever, Jude cria o cartaz de uma gravadora e o
número musical, psicodélico, com morangos alucinógenos caindo como bombas no
Vietnã enquanto os soldados, de cueca, carregam uma imensa Estátua da Liberdade
com grande dificuldade, finalizando com a imagem, para sempre retida na memória
de quem a viu, da adolescente nua fugindo de uma bomba de Napalm – a menina
surge aqui vagando sobre as águas dançando butoh. Belíssimo.
Across the Universe conta com artistas de
renome da Broadway no departamento de arte e coreografia, todos muito bem
manejados por Taymor – o Tio Sam animado, ao som de I Want You (She’s So
Heavy), é apenas uma das várias sacadas geniais. Ela sabe o que faz. Sua
verborragia, além da nostalgia de sua era revolucionária, é que atrapalharam o
filme, com excesso de boas intenções. Julie Taymor não se excusa de fazer
política descarada. Ela não toma distância de seu objeto. Transforma Bono Vox no
guru do ácido, pessoas começam a voar, o sexo é livre, os hippies entram na
parada, os anos 60 foram perfeitos.
Evidentemente, há ecos sobre a Guerra do Iraque atual e da
pasmaceira do público com a política. A imaginação da diretora e sua capacidade
criativa intoxicam de tanta emoção, mas há um descompasso entre o tema e o
filme, que termina mal editado, por conta dos cortes exigidos pelo estúdio – a
diretora disse que a versão em DVD terá tudo e será melhor.
FONTE:http://www.cineplayers.com/critica.php?id=1175







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