O dia estava cinzento quando de súbito acordou. Olhou assustado para o relógio posto à cabeceira. Eram dez horas da manhã. Não lembrava que horas havia adormecido, mas lembrava de que por volta das duas abriu sua última garrafa de uísque. Ainda sentia aquela dor forte na cabeça, mas se fizesse um esforço logo se acostumaria. Fazia isso há dois meses e aquele seria apenas mais um dia.
Sentou-se na cama e percebeu que o calor forte no quarto e os gritos vindos de fora permaneciam. Suspirou e sentiu-se desgostosamente cansado. Queria fazer diferente, mas nos últimos dias se dera conta que fazia a mesma coisa desde o início. Cada dia começava e terminava exatamente do mesmo jeito.
Assassinatos e suicídios deixavam-o arrepiado só de pensar. A todo o momento via vultos de pessoas mortas aos prantos e gritos de dor. No começo até que gostava e sentia um certo prazer, mas no decorrer dos anos aquilo lhe gerara cansaço e tédio. Aquilo precisava acabar1 Olhou-se no espelho e o que viu foi à imagem de um velho triste e acabado, apesar do porte físico jovem que ainda tinha.
Foi até a cozinha onde preparou seu café amargo cotidiano e tomou-o devagar prolongando aquele momento e adiando o instante em que teria que abrir a porta. Pegou sua capa, seu chapéu, cajado e tomou coragem, de qualquer forma teria que sair.
Ao abrir a porta o calor aumentou. Mesmo assim recusou-se em tirar o chapéu e a capa já ajustados em seu corpo. Circulou pelos corredores desviando o olhar dos vultos castigados. Lembrou-se da lista de tarefas para o dia e desejou uma folga. Sabia que poderia sair pelo mundo e caminhar normalmente pelas ruas _ e como desejara isso nos últimos dias, mas seu orgulho falara mais alto. Sempre que pensava na possibilidade retomava ao orgulho como justificativa de não o fazer e continuar aceitando aquilo lhe foi imposto pelo destino.
Avistou ao longe a casa da “mulher de preto” e as janelas estavam todas abertas. Pelo jeito ela começara a trabalhar cedo. Notou várias caixas no quintal e alertou-se que, se ela estava com muito trabalho, mais tarde ele próprio teria trabalho em dobro.
Sentiu uma tristeza profunda e, graças a esse sentimento, resolveu mudar de rumo. Subiu ao mundo enfim! Sem dificuldade nenhuma, o que o surpreendeu.
O que viu pelas ruas também não a surpreendeu. Há muito tempo recebera notícias de que as ruas não estavam tão diferentes de seu habitat. O calor também era o mesmo, mas o ar seco, os asfaltos quente e a poluição em excesso causou-lhe certo sufocamento.
Os mundos estavam parecidos. O que adiantou a separação? Pensou sobre a possibilidade de o outro estar cansado também e não pôde evitar o sorriso irônico em seus lábios. No fundo invejava o grande homem. Invejava-o por ter vivido em meio aos humanos, se tornado referência, passado pela experiência da morte e, principalmente, ser eternizado. A sua eternidade era irônica e desacreditada aos olhos humanos. A crença a ele era inferior à crença no outro.
Continuou andando e percebeu que estava numa das avenidas principais daquela cidade. A quantidade de carros congestionados causou-lhe espanto. Sentiu tonturas, náuseas e teve que se esforçar para não desmaiar.
Mais à frente avistou o alto de uma torre. Numa rua cheia de carros e prédios, uma torre pontuda, com telhas de cobre laqueadas só poderia significar uma coisa. Na ponta da torre notou um pontiagudo que definia uma cruz. “Em meio ao caos eis que surge o salvador” mentalizou irônica e sarcasticamente.
Caminhou diretamente para lá e confirmou a cruz do redentor. Algo-lhe ocorreu e se colocasse em prática, sua dor e angústia talvez tivessem fim. Notou a observação das pessoas nas ruas, mas pouco se importou.
Ao chegar ao portão da igreja, estranhamente sentiu-se em paz. No jardim, girassóis abertos atenuavam a beleza da construção impecável. Próximo ao jardim, uma cruz grande de quase dois metros de altura em madeira carvalho resplandecia e, pelo que parecia poderia ser vista ao longe.
Parou por um instante e lembrou-se de todos os momentos de sua vida. Momentos sublimes, momentos ruins, erros, acertos e deu-se conta de que não se arrependia absolutamente de nada. Viveria aquela vida novamente, mas não a queria mais.
Tirou a capa ajustada em seu corpo, recostou o cajado atrás da cruz e colocou o chapéu num banco próximo. Observou ao longe que alguns carros paravam em frente à igreja, mas sua visão embaçada não lhe permitiu entender exatamente o que via. Tirou as botas e camisa preta. As marcas em seu corpo ficaram à mostra e o sol o deixava com a pele ainda mais vermelha.
Posicionou em frente à cruz. Era um pouco maior que ele, mas conseguiria se encaixar perfeitamente. Esticou o braços o máximo que pôde e equilibrou-se para não cair. Um público começava a se formar ali na frente, pôde ouvir alguns burburinhos, mas não perdeu o concentração.
Fixou as mãos nas extremidades e mentalizou pequenas estacas cortando-lhe a carne. Logo, o sangue começou a escorrer de suas mãos. Juntou os pés e mentalizou novamente. Sentiu estacas por entre os ossos. A dor era insuportável. Lembrou-se da coroa de espinhos e as estacas brotaram em sua o fronte fazendo o sangue escorrer por toda a face e pescoço.
Neste momento agonizou de dor e gritou. Seu grito ecoou por todas as imediações. Sentiu remorso, repúdio a si próprio e um sentimento que nunca tinha sentido antes..
A essa altura, as pessoas que se amontoavam no jardim e nos portões aplaudiram e gritaram eufóricas e saudosas por todo aquele espetáculo. O padre atônito na porta da igreja tentava entender o que acontecia.
No alto da cruz, incrédulo com todas aquelas pessoas falou baixinho: “Pai, perdoai-vos, eles não sabem o que fazem”!
Incendiou-se! Cruz e corpo tornaram-se um só. Sentindo queimar-se, agradeceu por sua vida e por sua possível morte.
Aplausos e gritos foram às últimas coisas que ouviu quando finalmente desapareceu. O sino da igreja soou doze badaladas e o fogo baixou devagar.
Quando se materializou novamente estava de volta ao seu habitat, sem capa, chapéu e cajado. Ainda nauseado, reconheceu os corredores escuros e quente e logo ouviu os gritos desesperados que não eram mais o dele.
Tentou chegar até a porta de sua casa. As caixas grandes que vira pela manhã na casa da mulher de preto agora estavam ali e, no portão de trás, uma fila de vultos com rostos desfigurados se formava.
Aquela era a sua morte! Estava condenado àquilo junto à sua eternidade.
A redenção seria pedir demais.







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