Por Carlos Davissara
Sempre que eu chegava
do trabalho, sentava folgadamente na cama e vestia minhas meias 100% algodão.
Ah, que maravilha aquelas meias! Você precisava ver... Mas, naquele dia, elas
estavam estranhas, senti logo que vesti o pé direito. “Esta meia não é a
minha”, foi o que pensei. Engraçado é que ela estava no mesmo lugar onde eu
sempre costumava deixar – debaixo da cama.
Olhando por fora, as
listras vermelhas e brancas pareciam as mesmas de sempre, a textura suave
também permanecia. E o que diabos, então, estava havendo com meu pé ali
dentro?! Era como se as fibras do tecido se contraíssem. Cheguei a pensar que a
meia tivesse encolhido, mas, cacete, fazia um mês que eu a havia lavado.
Encolhendo àquela altura?!
Em pouco tempo, meu pé
começou a doer. Foi com esforço que tentei arrancar a meia fora, mas a maldita não
saía. Parecia ter aderido à pele.
Fui para a cozinha mancando,
quase sem conseguir por o pé no chão. Abri a geladeira, peguei o pote de
manteiga e atolei a mão lá dentro. Ao olhar minha perna, tomei um susto. A meia
já a tomava quase toda. Era assustador ver parte do meu corpo envolvido naquelas
listras vermelhas e brancas. Com a manteiga, meu intuito era escorregar a mão
por entre a meia e minha perna, num esforço desesperado de tentar aliviar
aquela pressão, mas não obtive sucesso.
Tentei correr à sala,
em busca do telefone, mas tropecei no primeiro passo. Minha perna pesava
demais. Caído, logo vi que as listras tomavam minha outra perna e subiam pelo
abdome. O que era só uma meia tornou-se uma segunda pele, que me consumia as
forças e roubava o ar. Mais um pouco, e eu estaria envolvido por inteiro
naquela meia parasita, como um enorme presente natalino.
Assim que as listras
chegaram ao meu pescoço, eu já quase não respirava. Aquele monte de tecido 100%
algodão era implacável em me esmagar. Logo perdi a visão. Nesse ponto percebi
que estava totalmente aprisionado, feito uma múmia envolvida em faixas
coloridas.
Sufocado, já sem
esperanças de sobreviver, julguei ter sentido certo alívio na pressão. Num
movimento repentino, a meia se desprendeu de meu corpo e inflou-se, formando
uma grande tenda de paredes macias. Eu estava liberto e novamente enxergando –
o suficiente para ver, admirado, em um dos cantos da tenda, o Ronald McDonald
abraçado a duas mulheres estonteantes, que só não digo que estavam totalmente
nuas por terem rodelas de picles nos olhos e chifres na cabeça. “Devo estar
ficando louco”, concluí.
Ronald me olhava num
sorriso malicioso e com certo desdém. Eu, imóvel, não sabia o que fazer. Ele
tomou a iniciativa e dirigiu-me a palavra:
– Vejo que você gostou
das minhas amigas... – disse, enquanto levava o olhar em direção de minha
cintura.
Só aí percebi: eu também
estava nu. E não só nu, mas excitado! Aquelas duas mulheres me provocaram de tal
maneira que fiquei como que enfeitiçado. Quando me dei conta da situação, num
reflexo de pudor, tapei minha excitação com as mãos, tentando disfarçar o
constrangimento.
– É que... sim...
sim... Elas são... lindas – afirmei.
– Olha só, você
reconhece essas meias? – ele perguntou, expondo as pernas envolvidas por
listras brancas e vermelhas.
Sim, isso mesmo, o pilantra
estava usando minhas meias! Eu sabia que aquela que eu havia colocado não era a
minha. Ele havia me roubado!
– São... as minhas
meias – falei, enfim.
Ignorando minha
perplexidade, disse-me, tranquilo:
– Vamos fazer um trato.
Eu te deixo aqui com minhas amigas, que passarão a ser suas, e você me deixa ir
embora com suas meias. Que tal?
Mesmo estranhando a
proposta, não pude deixar de pensar no assunto. Convenhamos que não era mau
negócio o que eu faria ali. Um par de meias pelas duas mulheres mais lindas que
eu já havia visto? Ótimo! Mas, tudo parecia muito simples...
– Só isso? – perguntei,
desconfiado. – Um par de meias por um par de mulheres? Sem nada a mais?
– Mais ou menos isso...
– respondeu. – Se considerar que sua vida não vale muita coisa, é simples assim
mesmo. Mas, veja bem, eu vou apenas passar a usar suas tão queridas meias e
assumirei sua antiga vida, pacata e rotineira. Em troca, você viverá nesta
confortável tenda, terá duas belas mulheres ao seu dispor e não precisará se
preocupar mais com nada. O que tem a perder?
O que ele dizia era
real. Minha vida nunca foi das mais invejáveis... Na verdade, eu a odiava.
Odiava a rotina em que vivia. E, outra coisa, nem trabalhando a vida inteira eu
teria a oportunidade de conseguir duas mulheres daquelas. Pensei bem e escolhi
seguir meu instinto.
– Realmente, não tenho
nada a perder – consenti. – Sua proposta é generosa. E creio que essas meias
não me farão muita falta... – respirei fundo e acrescentei – aceito o acordo.
No mesmo instante em
que concordei com a troca, Ronald simplesmente desapareceu. Para minha
tranqüilidade, as mulheres permaneceram. E não demorou a virem até mim para
saciar meus desejos. Depois, dormi.
Quando despertei, meu
corpo inteiro doía. Foi com espanto que notei onde estava: numa loja
McDonald’s! “Como vim parar aqui?” – murmurei, perplexo. Então, saí para a
frente da loja. E foi com ainda mais espanto que me vi, refletido no vidro de
um carro. Eu estava vestido com a roupa do Ronald!
Desde esse período, eu
trabalho para a rede McDonald’s. E, por mais que eu queira, não consigo me
desligar deste emprego. A mim, não resta dúvida: naquele dia, foi com o demônio
que negociei. Pior condenação não poderia ter me dado. Maldito!







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