quinta-feira, 21 de junho de 2012

O ACORDO


Por Carlos Davissara


Sempre que eu chegava do trabalho, sentava folgadamente na cama e vestia minhas meias 100% algodão. Ah, que maravilha aquelas meias! Você precisava ver... Mas, naquele dia, elas estavam estranhas, senti logo que vesti o pé direito. “Esta meia não é a minha”, foi o que pensei. Engraçado é que ela estava no mesmo lugar onde eu sempre costumava deixar – debaixo da cama.

Olhando por fora, as listras vermelhas e brancas pareciam as mesmas de sempre, a textura suave também permanecia. E o que diabos, então, estava havendo com meu pé ali dentro?! Era como se as fibras do tecido se contraíssem. Cheguei a pensar que a meia tivesse encolhido, mas, cacete, fazia um mês que eu a havia lavado. Encolhendo àquela altura?!

Em pouco tempo, meu pé começou a doer. Foi com esforço que tentei arrancar a meia fora, mas a maldita não saía. Parecia ter aderido à pele.

Fui para a cozinha mancando, quase sem conseguir por o pé no chão. Abri a geladeira, peguei o pote de manteiga e atolei a mão lá dentro. Ao olhar minha perna, tomei um susto. A meia já a tomava quase toda. Era assustador ver parte do meu corpo envolvido naquelas listras vermelhas e brancas. Com a manteiga, meu intuito era escorregar a mão por entre a meia e minha perna, num esforço desesperado de tentar aliviar aquela pressão, mas não obtive sucesso.

Tentei correr à sala, em busca do telefone, mas tropecei no primeiro passo. Minha perna pesava demais. Caído, logo vi que as listras tomavam minha outra perna e subiam pelo abdome. O que era só uma meia tornou-se uma segunda pele, que me consumia as forças e roubava o ar. Mais um pouco, e eu estaria envolvido por inteiro naquela meia parasita, como um enorme presente natalino.

Assim que as listras chegaram ao meu pescoço, eu já quase não respirava. Aquele monte de tecido 100% algodão era implacável em me esmagar. Logo perdi a visão. Nesse ponto percebi que estava totalmente aprisionado, feito uma múmia envolvida em faixas coloridas.

Sufocado, já sem esperanças de sobreviver, julguei ter sentido certo alívio na pressão. Num movimento repentino, a meia se desprendeu de meu corpo e inflou-se, formando uma grande tenda de paredes macias. Eu estava liberto e novamente enxergando – o suficiente para ver, admirado, em um dos cantos da tenda, o Ronald McDonald abraçado a duas mulheres estonteantes, que só não digo que estavam totalmente nuas por terem rodelas de picles nos olhos e chifres na cabeça. “Devo estar ficando louco”, concluí.

Ronald me olhava num sorriso malicioso e com certo desdém. Eu, imóvel, não sabia o que fazer. Ele tomou a iniciativa e dirigiu-me a palavra:

– Vejo que você gostou das minhas amigas... – disse, enquanto levava o olhar em direção de minha cintura.

Só aí percebi: eu também estava nu. E não só nu, mas excitado! Aquelas duas mulheres me provocaram de tal maneira que fiquei como que enfeitiçado. Quando me dei conta da situação, num reflexo de pudor, tapei minha excitação com as mãos, tentando disfarçar o constrangimento.

– É que... sim... sim... Elas são... lindas – afirmei.

– Olha só, você reconhece essas meias? – ele perguntou, expondo as pernas envolvidas por listras brancas e vermelhas.

Sim, isso mesmo, o pilantra estava usando minhas meias! Eu sabia que aquela que eu havia colocado não era a minha. Ele havia me roubado!

– São... as minhas meias – falei, enfim.

Ignorando minha perplexidade, disse-me, tranquilo:

– Vamos fazer um trato. Eu te deixo aqui com minhas amigas, que passarão a ser suas, e você me deixa ir embora com suas meias. Que tal?

Mesmo estranhando a proposta, não pude deixar de pensar no assunto. Convenhamos que não era mau negócio o que eu faria ali. Um par de meias pelas duas mulheres mais lindas que eu já havia visto? Ótimo! Mas, tudo parecia muito simples...

– Só isso? – perguntei, desconfiado. – Um par de meias por um par de mulheres? Sem nada a mais?

– Mais ou menos isso... – respondeu. – Se considerar que sua vida não vale muita coisa, é simples assim mesmo. Mas, veja bem, eu vou apenas passar a usar suas tão queridas meias e assumirei sua antiga vida, pacata e rotineira. Em troca, você viverá nesta confortável tenda, terá duas belas mulheres ao seu dispor e não precisará se preocupar mais com nada. O que tem a perder?

O que ele dizia era real. Minha vida nunca foi das mais invejáveis... Na verdade, eu a odiava. Odiava a rotina em que vivia. E, outra coisa, nem trabalhando a vida inteira eu teria a oportunidade de conseguir duas mulheres daquelas. Pensei bem e escolhi seguir meu instinto.

– Realmente, não tenho nada a perder – consenti. – Sua proposta é generosa. E creio que essas meias não me farão muita falta... – respirei fundo e acrescentei – aceito o acordo.

No mesmo instante em que concordei com a troca, Ronald simplesmente desapareceu. Para minha tranqüilidade, as mulheres permaneceram. E não demorou a virem até mim para saciar meus desejos. Depois, dormi.

Quando despertei, meu corpo inteiro doía. Foi com espanto que notei onde estava: numa loja McDonald’s! “Como vim parar aqui?” – murmurei, perplexo. Então, saí para a frente da loja. E foi com ainda mais espanto que me vi, refletido no vidro de um carro. Eu estava vestido com a roupa do Ronald!

Desde esse período, eu trabalho para a rede McDonald’s. E, por mais que eu queira, não consigo me desligar deste emprego. A mim, não resta dúvida: naquele dia, foi com o demônio que negociei. Pior condenação não poderia ter me dado. Maldito!

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