| Por Alexandre Koball
Apresentado em Cannes, foi aplaudido durante vários minutos por
jornalistas do mundo todo, reconhecendo mais uma vez um belo trabalho do diretor
brasileiro Walter Salles, criador de filmes emocionantes que sempre exploram e
entram fundo nos sentimentos de seus personagens. Foi assim com Central
do Brasil e com Abril Despedaçado. Não é muito
diferente com seu primeiro esforço internacional (Diários não pode ser
considerado brasileiro de forma alguma exceto pelo diretor). O filme é lindo, e
possui vários momentos emocionantes. Mas por outro lado, não foi ainda que
Salles criou uma obra-prima, não vejo este filme sendo um grande vencedor de
prêmios importantes ou populares, mas será sempre um competidor forte, assim
como aconteceu em Cannes, onde estava no grupo de favoritos mas acabou perdendo
para o filme de Michael Moore, Fahrenheit 9/11.
Desde seu início, o filme faz questão de demonstrar que não
quer ser épico, no sentido de demonstrar grandes feitos e acontecimentos. A
figura de Ernesto ‘Che’ Guevara é mostrada como humana, sensível (somos
apresentados logo a seu problema de asma, que quase tirou sua vida durante sua
aventura posterior) e muito confusa em relação ao futuro. Ele deixa de se formar
em medicina para realizar uma viagem pela América do Sul ao lado de seu grande
amigo Alberto Granado (o velhinho que aparece antes dos créditos finais),
deixando uma vida confortável na Argentina em 1952 em troca de uma aventura que
se tornaria inesquecível, levando Guevara a se tornar o revolucionário cubano
que foi, anos mais tarde.
Essa aventura, às vezes apresentada de forma engraçada, às
vezes de forma romântica, foi baseada nos próprios diários de Guevara, e
transferida com um enorme carinho para o roteiro do filme, escrito por Jose
Rivera. Antes das filmagens, o diretor refez a mesma jornada mais de uma vez,
para aprofundar-se e tentar entender pelo menos de forma razoável o que pode ter
se passado pela cabeça dos dois amigos, principalmente de Guevara, resultando na
completa transformação de sua personalidade e mudança em sua visão do mundo que
o cercava. Não deve ter sido um trabalho fácil, mas o filme conseguiu capturar
muito bem a transformação do jovem irrequieto ao homem que vivencia e se
preocupa com a pobreza e os pobres que o cercam, e quer fazer alguma coisa para
mudar isso. Guevara não acreditava em milagres, e não esperava que a revolução
acontecesse facilmente, sem a ajuda da união do povo e de armas (ao contrário de
Gandhi). Uma simples frase, lá pelo meio do filme, demonstra bem isso, mas de
maneira praticamente informal, quando ele ainda não imaginava que teria sua vida
mudada.
Toda a jornada é vivida intensamente pelos dois personagens, e
de país em país eles vão conhecendo pessoas que precisam de ajuda, de atenção.
Guevara, um estudante quase formado em medicina, aprende muita coisa
principalmente na prática, e aos poucos vai se tornando uma pessoa popular por
onde passa, um tanto por causa de seu bom coração e outro tanto por causa de sua
boa sorte. Interpretado de forma muito competente pelo ator mexicano em ascensão
Gael García Bernal (que está também no novo filme de Almodóvar, Má
Educação), Guevara é sempre uma figura forte na tela. Seu amigo Granado
também é tão bem interpretado quanto (embora tenho um jeito mais brincalhão,
irresponsável) por Rodrigo De la Serna, este ainda principalmente um ator de TV
na Argentina.
O único ponto fraco de todo o lado humano de Diários de
Motocicleta fica mesmo com a distância inicial com que o roteiro nos joga os
acontecimentos. O inicio do filme é um pouco irregular (ainda que divertido, e
sem dúvida a parte mais leve), jogando-nos rapidamente para o início da longa
aventura, sem muitos detalhes de qualquer personagem, sobretudo dos dois amigos.
Mas vamos aprendendo a conhecê-los melhor durante a viagem, e gostar (ou não) de
suas personalidades. A direção do filme é ótima, Salles mais uma vez faz de um
filme de baixo orçamento (mesmo que já tenha sido uma produção muito mais cômoda
em relação a um Central do Brasil, por exemplo, está longe de ter os valores de
um grande filme de Hollywood) algo prazeroso e divertido de ser acompanhado. A
curva dos acontecimentos foi muito bem desenvolvida, e o filme vai ficando mais
obscuro (alguns podem confundir isso com chato) após sua metade, quando o
personagem de Guevara finalmente chega num nível de desenvolvimento pleno.
Como foi falado, o filme é lindo de doer. Servirá com certeza
como uma propaganda positiva da América do Sul para os habitantes dos outros
continentes. Temos neve, desertos, florestas, patrimônios históricos, calor
humano. Tudo isso é demonstrado com perfeição pelo diretor. É um continente rico
administrado por pessoas ruins. É o que Guevara percebe ao longo de sua jornada,
e ver a fome e a miséria de pessoas que poderiam ser tão felizes e completas lhe
dá forças para tentar reverter tudo. Infelizmente, hoje, meio século depois,
ainda somos tão pobres quanto antes, é verdade. Mas não é objetivo do filme
tentar solucionar ou sequer sugerir soluções para esses problemas. Seria uma
enorme pretensão, e foi bom o roteiro de Rivera ter-se mantido longe disso.
Enfim, Diários de Motocicleta é um filme visualmente lindo, com
dois personagens centrais muito bem desenvolvidos, e ele ajuda a entender,
talvez melhor do que qualquer livro de História, um pouco do nome ‘Che’ Guevara.
O filme não julga ninguém, apenas expõe fatos reais que aconteceram com essa
figura histórica. Tem uma trilha sonora típica de cada pais (não é um destaque
mas agrada) e, mesmo sendo em sua estrutura um drama, diverte e faz rir. Tem
alguns problemas de ritmo no início e pode ser confundido com chato no final,
mas é um belo trabalho do provável melhor diretor brasileiro da atualidade. Mais
do que recomendado!
FONTE:http://www.cineplayers.com/critica.php?id=108 |
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Diários de Motocicleta
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